História em quadrinhos alerta sobre riscos de mineração de urânio e fosfato no Ceará

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Chico Paiva é dessas pessoas que acumulam saberes dos mais diversos. Não tem o diploma da Academia, mas o conhecimento adquirido pelas inúmeras experiências de vida e pela curiosidade. Homem do campo, conhece o movimento das aves, o som dos ventos e a dança das nuvens quando mudam de cor e começam a se juntar em dia de chuva. Morador da localidade de Riacho das Pedras, em Santa Quitéria, Sertão Central do Ceará, em uma casa que conta a história de gerações, ele é personagem central da Revista em Quadrinhos, “Ceará Antinuclear: em defesa da vida, da água e por justiça ambiental”.

Seu Chivo Paiva e Dona Jurandir.

Seu Chivo Paiva e Dona Jurandir.

A HQ é uma ferramenta criada pela Articulação Antinuclear do Ceará roteirizada com jovens da comunidade e em parceria com o Coletivo Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça, o Núcleo Tramas da Universidade Federal do Ceará, a Cáritas Diocesana de Sobral e o Fundo Brasil de Direitos Humanos para ajudar as comunidades, escolas e outros agentes interessados a entender e trabalhar de forma mais didática os impactos que a mineração de urânio e fosfato podem causar em Santa Quitéria e outros municípios da região.

Além de Chico Paiva, Jurandir, sua companheira e Rômulo, seu neto, ajudam a contar o enredo da história que se passa em um sonho/pesadelo do agricultor com a mina em funcionamento.

“Enquanto a chuva teimava em não cair e os animais morriam de sede, caminhões carregados de água não paravam de cruzar o grande portão de ferro que isolava a jazida do resto do entorno”, sonhava. Nós não vamo deixar isso acontecer aqui. Escute o que eu tô lhe dizendo vô”, lembra Rômulo ao avô após acordá-lo do seu pesadelo.

Com 20 páChico Paiva_HQginas, a HQ cita os principais impactos, tanto à saúde das pessoas, quanto ao meio ambiente, caso o Consórcio Santa Quitéria consiga do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) as licenças ambientais necessárias para colocar em prática a mineração na jazida de Itataia.

Com desenhos, ilustração e projeto gráfico do ilustrador Carlitos Pinheiro, a revista é uma ferramenta importante de luta e combate ao empreendimento que, se licenciado, trará prejuízos incalculáveis para o modo de vida das pessoas que vivem na região.

Leia aqui a história em quadrinhos ou entre em contato para pedir seu exemplar impresso.


Ibama, Don’t License

Carta Site_EN

Antinuclear Articulation of Ceará releases letter yo Ibama for licensing environmental impact of uranium and phosphate mining in Ceará, Brazil be canceled

Formed by social movements, research groups and Central Sertão communities, the Antinuclear Articulation of Ceará (AACE) has been acting since 2011 by denouncing the impacts of the Santa Quitéria Project, an undertaking that intends to explore the Itataia Reservoir, 222 Km from Fortaleza, to produce 1,600 tons of uranium concentrate and 1,050,000 tons of phosphate derivatives destined for nuclear energy and agribusiness. To make visible the irregularities of the project, which is in the process of environmental licensing at IBAMA, the organization has just released a letter to society.

The document points out that the Santa Quitéria Project will directly affect 156 peasant communities, more than 60 municipalities and three watersheds in Ceará. It will also consume 1 million and 100 thousand liters of water per hour. The cost is equivalent to 125 car-kites per sixty minutes and corresponds to a 400% increase on demand from Edson Queiroz dam, from which it is intended to withdraw water through an adductor. Meanwhile, settlements near the mine survive with 14 kite-cars per month.

In addition to the water injustice, the letter notes that the Santa Quiteria Project will leave waste cells and tailings dam with more than 29 million tons of cubic meters, radioactive material that will be spread by the state and cause contamination of water, of vegetation, of soil and of food. Besides, there are different researches that indicate the relationship between uranium exploration and the increase of cancer cases.

Renata Maia, lawyer in the Urucum Flor Collective, is one of the writers of the document and warns that Fortaleza will also be on the route of contamination, since the uranium concentrate and the phosphate derivatives produced in Santa Quitéria will be taken, by road, to the Port of Mucuripe. “A total of four loads of uranium concentrate per year are planned, each with 25 containers that will take 15 tons of radioactive products to the capital of Ceará. Despite this, studies from the Núcleo Tramas (UFC) reveal that INB and Galvani, proponents of the project, do not characterize Fortaleza as an area directly affected by the project and did not even send to IBAMA a Safety Plan to transport the products”, she points out.

The letter also points out that, in September 2016, IBAMA itself issued a Technical Opinion contrary to the project. The report states, among other irregularities, the lack of proof of water viability, the poor location of tailings piles, the absence of mitigation measures regarding the possible contamination of the nearest communities and the lack of authorizations by IPHAN (Institute of National Historical and Artistic Heritage) and CNEN (National Commission of Nuclear Energy). Even so, to date, the IBAMA Board has not formally ruled on.

“Despite all flaws of studies that were presented by the companies and all socio-environmental impacts – recognized, even by IBAMA -, the Santa Quitéria Project has not been discussed with the population and the Direction of the environmental autarchy has not yet manifested itself on the filing of its licensing”, says Iara Fraga of the Movement for Popular Sovereignty in Mining (MAM-CE).

“In light of this, the AACE letter summarizes the main irregularities of the Santa Quitéria Project and calls for national and international support to request the IBAMA’s Directors to refuse uranium and phosphate mining in Ceará”, concludes Erivan Silva, who is also a member of the MAM -CE.

The document will be available for signatures from institutions and individuals by the end of April and can be accessed at the links: www.urucum.org/ facebook.com/coletivourucum/.

Antinuclear Articulation of Ceará

The Antinuclear Articulation of Ceará (AACE) comprises the communities around the Itataia Reservoir, the Landless Workers’ Movement (MST), the Movement for Popular Sovereignty in Mining (MAM), the Pastoral Land Commission (CPT) ), The Diocesan Caritas of Sobral, the Urucum Flower Collective – Human Rights, Communication and Justice and the Work, Environment and Health Center (TRAMAS) of the Federal University of Ceará. Since 2011, the AACE has been working with the defence of the territorial rights of the populations that can be affected by uranium and phosphate mining in Ceará and, since 2016, it has been in charge of the “Ceará Antinuclear Campaign: in defence of life, of water and of environmental justice”. Among its main activities, we highlight the promotion of spaces for exchanging experiences, human rights training and the dissemination of information to society.

More information:
Renata Maia (85 9 9600.6066) – lawyer in Urucum Flower collective – Human Rights, Communication and Justice.
Iara Fraga (85 98126.5543) – Movement for Popular Sovereignty in Mining (MAM).
coletivourucum@gmail.com / www.urucum.org


Ibama, não licencie!

Carta Site_PT

Articulação Antinuclear do Ceará lança carta ao IBAMA para que licenciamento ambiental de mineração de urânio e fosfato no Ceará seja cancelado

Formada por movimentos sociais, grupos de pesquisa e comunidades do Sertão Central, a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) atua desde 2011 denunciando os impactos do Projeto Santa Quitéria, empreendimento que pretende explorar a Jazida de Itataia, a 222 Km de Fortaleza, para produzir anualmente 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados destinados à energia nuclear e ao agronegócio. Para visibilizar as irregularidades do projeto, que está em processo de licenciamento ambiental no IBAMA, a organização acaba de lançar uma carta à sociedade.

O documento aponta que o Projeto Santa Quitéria atingirá diretamente 156 comunidades camponesas, mais de sessenta municípios e três bacias hidrográficas do Ceará, consumindo 1 milhão e 100 mil litros de água por hora. O gasto equivale a 125 carros-pipa a cada sessenta minutos e corresponde a um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se pretende retirar a água através de uma adutora. Enquanto isso, assentamentos próximos à jazida sobrevivem com 14 carros-pipa por mês.

Além da injustiça hídrica, a carta assinala que o Projeto Santa Quitéria deixará pilhas e barragem de rejeitos com mais de 29 milhões de toneladas de metros cúbicos, material radioativo que será espalhado pelo estado e provocará a contaminação das águas, da vegetação, do solo e dos alimentos. Apresenta, ainda, as diferentes pesquisas que indicam a relação entre exploração de urânio e aumento dos casos de câncer.

A advogada Renata Maia, do Coletivo Flor de Urucum, é uma das redatoras do documento e alerta que Fortaleza também estará na rota de contaminação, pois o concentrado de urânio e os derivados fosfatados produzidos em Santa Quitéria serão destinados, por via rodoviária, até o Porto do Mucuripe. “No total, estão programados quatro carregamentos de concentrado de urânio por ano, cada um com 25 contêineres que levarão 15 toneladas de produtos radioativos para a capital cearense. Apesar disso, estudos do Núcleo Tramas (UFC) revelam que a INB e a Galvani, proponentes do empreendimento, não caracterizam Fortaleza como área diretamente afetada pelo projeto e sequer enviaram ao IBAMA um Plano de Segurança para o transporte dos produtos”, destaca.

A carta ressalta, ainda, que, em setembro de 2016, o próprio IBAMA emitiu um Parecer Técnico contrário ao empreendimento. O Parecer atesta, entre outras irregularidades, a não comprovação da viabilidade hídrica, a péssima localização das pilhas de rejeitos, a ausência de medidas de mitigação quanto à possível contaminação das comunidades mais próximas e a falta de autorizações do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Mesmo assim, até hoje, a Direção do IBAMA não se pronunciou formalmente.

“Apesar das falhas dos estudos apresentados pelas empresas e dos impactos socioambientais – reconhecidos, inclusive, pelo IBAMA -, o Projeto Santa Quitéria não tem sido discutido com a população e a Direção da autarquia ambiental ainda não se manifestou sobre o arquivamento de seu licenciamento”, declara Iara Fraga, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM-CE).

“Diante disso, a carta da AACE sintetiza as principais irregularidades do Projeto Santa Quitéria e convoca o apoio nacional e internacional para requerer à Direção do IBAMA o indeferimento da mineração de urânio e fosfato no Ceará”, conclui Erivan Silva, que também integra o MAM-CE.

O documento estará disponível para assinaturas de instituições e pessoas físicas até o final de abril e poderá ser acessado no site do Coletivo Flor de Urucum. As assinaturas também poderão ser enviadas para coletivourucum@gmail.com.

Articulação Antinuclear do Ceará
Compõem a Articulação Antinuclear do Ceará (AACE) as comunidades do entorno da Jazida de Itataia, o Movimento de Trabalhadores(as) Rurais Sem Terra (MST), o Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Cáritas Diocesana de Sobral, o Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça e o Núcleo Trabalho, Meio Ambiente, Saúde (TRAMAS), da Universidade Federal do Ceará. Desde 2011, a AACE atua com a defesa dos direitos territoriais das populações que podem ser atingidas pela mineração de urânio e fosfato no Ceará e, desde 2016, está à frente da “Campanha Ceará Antinuclear: em defesa da vida, da água e por justiça ambiental”. Entre suas principais atividades, destaca-se a promoção de espaços de intercâmbio de experiências, a formação em direitos humanos e a difusão de informações para a sociedade.

Mais informações:
Renata Maia (85 9 9600.6066) – Advogada do Coletivo Flor de Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça.
Iara Fraga
(85 98126.5543) – Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).
coletivourucum@gmail.com / www.urucum.org


Campanha Ceará Antinuclear

Ceará Antinuclear

Campanha Ceará Antinuclear – em defesa da vida, da água e por justiça ambiental!

Você sabia que querem implantar uma mineração de urânio e fosfato no Ceará?

Chamada de “Projeto Santa Quitéria”, ela esconde por trás de seu nome, aparentemente, indefeso a tentativa de explorar a Jazida de Itataia, uma mina de 65,6 milhões de toneladas de minério, localizada entre Itatira e Santa Quitéria, no Sertão Central do Ceará.

O objetivo do empreendimento é produzir 1.050.000 (um milhão e cinquenta mil) toneladas de derivados fosfatados e 1.600 toneladas de concentrado de urânio por ano para atender aos mercados do agronegócio e da energia nuclear!

Todo esse material pretende ser transportado, por via rodoviária, até o Porto do Mucuripe, em Fortaleza. Para isso, estão previstos quatro carregamentos de urânio por ano, cada um com 25 contêineres de 15 toneladas, mas os municípios que aparecem nessa rota radioativa sequer foram informados sobre o empreendimento.

O Projeto de Mineração de Urânio e Fosfato também prevê utilizar 1 milhão e 100 mil litros de água por hora e, em seus 20 anos de vida útil, além da escassez e da contaminação hídrica, pretende deixar duas pilhas radioativas e uma barragem de rejeitos na região, lixo tóxico que ficará como eterno legado de sua destruição.

No município de Caetité (Bahia), uma mineração como essa já está em operação desde o ano 2000 e é executada pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), a mesma empresa que pretende explorar o urânio no Ceará. Lá, o saldo da mineração pode ser resumido em um quadro infeliz de vazamento de material radioativo, contaminação da água, acidentes de trabalho e desinformação, conforme atestam documentos do IBAMA, do Ministério Público, da Comissão de Pesquisa e Informação Independente sobre Radioatividade (CRIIRAD), da Plataforma Dhesca Brasil, do Greenpeace e da própria INB.

No Ceará, o Projeto Santa Quitéria não está em operação, mas passa por um processo de licenciamento ambiental que tem sido coordenado pelo IBAMA.

Em setembro de 2016, a equipe técnica desse órgão emitiu um Parecer contrário ao empreendimento relatando, entre outras irregularidades, a não comprovação da viabilidade hídrica, a péssima localização das pilhas de rejeitos, a ausência de medidas de mitigação quanto à possível contaminação radioativa das comunidades mais próximas e a falta de autorizações do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Desde então, esse Parecer está com a Direção do IBAMA, que, até agora, não se pronunciou.

Diante dos impactos, dos riscos e das irregularidades do Projeto Santa Quitéria; das violações de direitos já causadas pela mineração de urânio em Caetité e da falta de informação da sociedade sobre um empreendimento dessa natureza que pretende se instalar aqui, lançamos a Campanha Ceará Antinuclear – em defesa da vida, da água e por justiça ambiental!

Pela terra, pela água, pelo trabalho digno, por alimentos saudáveis e pela vida das pessoas, dizemos: #Ibama, não licencie!

Para mais informações sobre a mineração de urânio em Caetité, acesse:

https://br.boell.org/sites/default/files/downloads/499_Dhesca_Brasil_-_Missao_Caetite_-_Meio_Ambiente_-_2011.pdf
http://www.criirad.org/mines-uranium/bresil/relatorio-prelim-fiocruz-CRIIRAD-caetite-11-4-2014.pdf
http://www.greenpeace.org/brasil/Global/brasil/report/2008/10/ciclo-do-perigo.pdf


As veias continuam abertas: o drama da mineração na América Latina

Mineração

“O descobrimento das jazidas de ouro e prata da América, a cruzada de extermínio, escravização e sepultamento nas minas da população aborígene, o começo da conquista, o saqueio das Índias Orientais, a conversão do continente africano em local da caça de escravos negros: são todos feitos que assinalam os alvores da produção capitalista.” (Karl Marx, O Capital, volume I)

Então, grande Karl Marx, esses feitos continuam marcando a manutenção e reprodução do capitalismo que, se nos seus alvores, apesar de todo esse massacre, significou um progresso para a humanidade em relação ao escravismo e ao feudalismo que lhe antecederam, hoje significa um entrave ao verdadeiro progresso, felicidade e bem-estar da humanidade e, se não for superado pelo socialismo, levará o gênero humano de volta à barbárie, como previu seu amigo e parceiro de teoria e prática, o segundo violino – Friedrich Engels.

Potosi, na Bolívia, é um exemplo. Nos séculos XVI e XVII forneceu à Europa mais da metade da prata que enriqueceu a burguesia, e a sobra ainda dava para os invasores ostentarem numa cidade de 200 mil habitantes, a maioria escravizada, rivalizando com as metrópoles. Esgotado o minério, foram abandonando o local, onde deixaram 8 milhões de cadáveres de indígenas. “Só ficaram vivos os fantasmas da riqueza morta” (Eduardo Galeano).

No século XX, Potosi volta a ser explorada, agora à procura de estanho, com a mesma pobreza e miséria, agora sem ostentação, pois tudo vai para as indústrias diversas, inclusive, para recipientes que conservam alimentos, nos quais uma parte, por pequena que seja, passa para os alimentos e será fonte de doenças. Ele é também um dos componentes das pastas dentais. Pois bem, os mineiros são vitimados pela silicose, tendo vida média de 45 anos.

Resistência

Há 211 conflitos na América Latina entre comunidades indígenas, camponesas, Estados e empresas multinacionais e nacionais por causa da mineração. Este é o número registrado pelo Observatório de Conflitos da Mineração na América Latina. De fato, o número é maior, pois o próprio Observatório afirma que precisa de mais informações do Brasil, Paraguai e Venezuela.

Acusadas pelas empresas e governos de dificultarem o desenvolvimento nacional, as comunidades, que não se deixam levar por essa conversa e resistem, têm toda razão. Para o povo, o número e a baixa qualidade dos empregos que a extração de minérios gera não compensa as consequências, que são muitas e graves.

Mineração_1A água é contaminada por arsênico, que causa câncer, e por metais pesados como o mercúrio e o chumbo, que causam problemas neurológicos e respiratórios, entre outros. As enfermidades sociais são sérias. Comunidades de duas mil pessoas são, de repente, ocupadas por 10 mil mineiros, desequilibrando a vida social com a introdução de drogas, prostituição, roubos e delinquência diversificada. Quando vão embora, os problemas ficam.

O regime de trabalho é de semiescravidão. A legislação trabalhista não é respeitada. Além da insalubridade e periculosidade, as jornadas de trabalho são extenuantes: 13, 14, 16 horas. Existe também o regime de 14 dias de mina, 14 de folga. Jogam por terra as convenções da Organização Internacional do Trabalho e as declarações da ONU sobre direitos do trabalhador e direitos da cidadania.

Tragédias como a de Mariana (MG), no Brasil, e Veladero, na Argentina, ambas ocorridas em 2015 (novembro e outubro, respectivamente), que deixaram danos irreparáveis às pessoas e à natureza, não são acidentes. São fruto da irresponsabilidade da burguesia e de seus governos, diante da vida, uma vez que na (i)lógica capitalista, o que importa é o “ter” e não o “ser”.

Desde a Colonização

Não surpreende que os governos burgueses estimulem e apoiem esse tipo de atividade, pois esta é sua função mesmo: servir às classes dominantes. O que surpreende é que atitudes idênticas estejam sendo adotadas por regimes bolivarianos que propunham a libertação nacional e a construção do socialismo do Século XXI.

Na verdade, além da retórica, não houve ruptura com o modelo agroexportador dependente e associado, até porque não houve acúmulo de forças suficientes para isso. Fazer autocrítica e refazer caminhos é louvável e faz parte do processo de transformação da sociedade. Agora, render-se ao modelo em nome do desenvolvimento e para não permitir que o governo volte a ser assumido pelas elites tradicionais, é inaceitável.

O caso mais gritante é o do Equador, onde o governo de Rafael Correa, rompendo com a Constituição da Revolução Cidadã e com seu Programa – Plano Nacional do Bem Viver (PNBV) –, firmou acordo com a China para leiloar três dos seus oito milhões de hectares de selva amazônica com empresas chinesas para a extração de minérios. A justificativa é o desenvolvimento econômico e a manutenção de programas sociais ameaçados por falta de recursos. Na realidade, o Equador acumula uma dívida de US$ 7 bilhões com a China, correspondentes a 10% do Produto Interno Bruto.

As áreas leiloadas pelo governo equatoriano atingem em cheio os territórios indígenas, que têm pressionado, por meio de diversas formas de denúncia e mobilização, e recebido em troca muita repressão e táticas de cooptação das organizações menores, buscando o isolamento da Confederação Nacional de Organizações Indígenas (Conaie). A repressão se estende agora ao movimento estudantil, como informado na última edição de A Verdade.

Dependente do petróleo, o governo de Maduro, na Venezuela, está fustigado pelo boicote econômico da burguesia local associada ao imperialismo estadunidense, com o povo amargando carestia e desabastecimento e reduzindo seu apoio ao regime bolivariano.

O Modelo Econômico e Social Produtivo da Bolívia, presidido por um líder indígena, Evo Morales, tem obtido sucesso, reduzindo a pobreza e produzindo crescimento econômico. Agora, entretanto, está sob ameaça justamente porque seu êxito está embasado nas exportações de gás e minério, cujos preços estão em queda, provocados pela estratégia imperialista de dominação, à qual aderiu a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Para tentar a superação de suas crises, que se tornam contínuas em vez de cíclicas, como na época em que Marx escreveu O Capital, a classe burguesa, por meio dos Estados centrais (imperialistas), não está disposta a permitir a permanência de governos que ofereçam o mínimo que seja à sua voracidade (vide a recente derrubada da presidenta Dilma Rousseff no Brasil) e o fustigamento permanente do governo de Maduro.

Existe saída?

No modelo capitalista não há saída, senão o aprofundamento da exploração, da destruição da natureza e dos seres vivos. Portanto, como dizia Engels, a humanidade só tem duas alternativas: socialismo ou barbárie. O problema é como chegar ao socialismo. Quem tem interesse objetivo nessa mudança, mesmo que não tenha consciência disso, é o proletariado – assim considerada a classe dos despossuídos dos meios de produção, aqueles que só dependem da sua força de trabalho para viver.

Para construir o socialismo, então, essa classe precisa estar consciente, organizada, mobilizada, criar o seu poder autônomo, independente. E o poder real só existe se reunir os aspectos econômico, político e ideológico. Construído de baixo para cima. Não adianta assumir o governo dos Estados, seja por via pacífica ou armada, pensando em promover as transformações a partir do aparelho estatal, sem contar com a base capaz de construir o novo modelo e não se deixar intimidar ou enganar por pressão ou cantos de sereia dos meios de comunicação.

Sem direção revolucionária fundamentada na teoria marxista e na compreensão da nossa realidade e das experiências históricas de cada país da América Latina, as massas não construirão o poder popular. Sem as massas conscientes e organizadas não haverá direção revolucionária; por mais firme e decidido que seja o grupo de revolucionários, este nunca terá o poder de construir o socialismo se estiver desligado das massas.

Sem essa combinação entre vanguarda e massa, assim como uma locomotiva aos vagões de um trem, conformando uma unidade, não haverá socialismo no Século XXI e em nenhum outro século. As lições da História estão postas, mas muitos não conseguem ou não querem aprender com elas.

Por José Levino é historiador
Fonte: A Verdade


Renovar a esperança, se ajuntar em um grande mutirão…

nuclear

Comunidades, agricultores, organizações da sociedade civil e pesquisadores se encontram em Santa Quitéria para refletir, debater e traçar linhas de ação sobre os impactos da mineração no Ceará.

Mariana, em Minas Gerais, teve sua história marcada para sempre com o maior crime ambiental do Brasil. Um rio de lama, uma imensidão de rejeitos de minério que devastou tudo que encontrou pela frente. Lama que afogou a vida dos animais, das plantas e a vida da gente daquele lugar. Vidas matadas e vidas marcadas com um marrom cor de terra que não sai na água. Não importa o quanto lave. Ficará lá, como tatuagem.

Isso não pode ser esquecido, é preciso reverberar cada vez mais. Mariana evidenciou as inúmeras tragédias já ocorridas e não publicizadas e outras tantas que podem ocorrer por todo o país. Vidas ameaçadas todos os dias por um único motivo: o capital em detrimento das pessoas, da biodiversidade, da vida.

Em Santa Quitéria, no sertão do Ceará, a 222 quilômetros de Fortaleza, onde o sol chega cedo e marca presença na pele dos desavisados, a ameaça da mineração é uma constante na vidas das pessoas. Lá, querem explorar fosfato e urânio. Mais uma vez, com o discurso do desenvolvimento a todo custo, como se o convívio com o semiárido já não fosse uma prova mais que prática do verdadeiro desenvolvimento praticado e necessário para a região.

Com o objetivo de articular cada vez mais o povo das comunidades que podem ser atingidas com esse projeto e que já estão sendo impactadas com outras minerações no estado, a Articulação Antinuclear do Ceará realizou sua III Jornada junto ao I Encontro Estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, MAM. Gente que se ajuntou para tensionar a não concretização da exploração da Jazida de Itataia, em Santa Quitéria e para estudar, partilhar e pensar estratégias de qualificação do debate e linhas de ação quanto aos impactos da mineração do Estado.

Roda de debates e partilha de saberes

Com a participação de aproximadamente 200 pessoas vindas de vários territórios e mais de dez municípios e um público predominantemente jovem, durante três dias, foram apresentados relatos, estudos e vivências de pesquisadores(as) e comunidades desenvolvidos ao longo dos últimos anos, tanto em Santa Quitéria como em Caetité, na Bahia.

Entre as rodas de conversa, uma análise de conjuntura feita na manhã do primeiro dia por Soraya Tupinambá do “Mandato é tempo de resistência”, Psol, e Antônia Ivaneide (Neném), do MST, ajudou a entender o atual contexto sociopolítico do Brasil. Além disso, foi apresentado um panorama sobre a “questão mineral no Brasil e no Ceará” com Charles Trocate, do MAM nacional; Raquel Rigotto, do Núcleo Tramas/UFC; Francisco Eufrásio, do Assentamento Morrinhos (Santa Quitéria); Cacique Lucélia Pankará, da Aldeia Serrote dos Campos (Itacuruba) e Francisco Pinheiro, do Sindicato dos/as Trabalhadores/as Rurais de Quiterianópolis.

“Eu venho da margem do Rio São Francisco, de uma cidade muito pequena, mas impactada por um projeto tão grande. Há cinco anos estamos na luta e não deixamos acontecer a construção da usina nuclear na nossa comunidade”, partilhou a Cacique Lucélia.

Na manhã do segundo dia de encontro, foi apresentado um painel de pesquisas sobre a ameaça nuclear, abordando dois eixos: “A construção social do risco de contaminação ambiental e humana dos trabalhadores/as da INB e moradores/as do entorno da mina de urânio em Caetité, Bahia”, facilitado pela professora Cláudia de Oliveira, da UFBA, e a “Construção compartilhada de conhecimentos – universidade, territórios e o debate sobre os riscos do Projeto Santa Quitéria”, debatido por Renata Catarina, do Núcleo Tramas/UFC. Houve, ainda, um momento de contextualização do processo de chegada da INB em Caetité e dos processos de resistência construídos pela Articulação Antinuclear Brasileira, espaço apresentado por Zoraide Vilas Boas.

Projeto Santa Quitéria

Proposto pelo Consórcio Santa Quitéria – firmado entre a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e a Galvani Indústria, Comércio e Serviços S/A -, o Projeto Santa Quitéria pretende extrair urânio e fosfato da Jazida de Itataia, a maior mina de urânio do Brasil. O objetivo é produzir 1.600 toneladas de concentrado de urânio e 1.050.000 toneladas de derivados fosfatados por ano, destinados à geração de energia nuclear e à fabricação de fertilizantes e ração animal para o agronegócio.

Com 20 anos de vida útil, o projeto pretende transportar o concentrado de urânio através do Porto do Mucuripe (em Fortaleza) e, caso entre em operação, deixará pilhas de rejeito com material radioativo no Sertão Central do Ceará.

Uma das principais ameaças do empreendimento é o consumo intensivo de água, estimado em 911.800 litros por hora. Isso representa um aumento de 400% sobre a demanda do Açude Edson Queiroz, de onde se prevê transportar a água através de uma adutora.


10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos

Sempre é tempo de celebrar a equidade e a justiça social!

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Em 10 de dezembro comemora-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos, data da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 1948. Hoje, 67 anos depois, a luta pela efetivação desses direitos se mostra cada vez mais necessária.

O coletivo Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça comemora e homenageia o empenho de todas e de todos lutadores sociais, agente de transformação, e reitera a importância da defesa dos direitos humanos na construção de uma sociedade mais justa e plural. Sigamos!


12 de outubro, dia de Artivismo no Serviluz

Pipa vermelha para cortar o céu azul, câmera analógica para descobrir outros olhares, spray para colorir paredes com palavras de luta. Nesta segunda-feira, dia 12 de outubro, o coletivo Urucum – Direitos Humanos, Comunicação e Justiça e a Associação de Moradores do Alto Paz, com a ajuda indispensável de parceiros, organizaram um dia de atividades culturais no Serviluz.

Com direito a café quente, lanche e um baião de dois com peixe para o almoço (sentiu o cheirinho?), a programação do evento foi diversificada: durante a manhã, uma oficina sobre direito à moradia utilizou o método do Teatro do Oprimido para representar a importância da organização popular perante as constantes ameaças de remoção. Enquanto isso, a criançada se divertia fazendo suas próprias pipas. Já à tarde, a oficina de fotografia analógica propôs redescobrir o Serviluz através das lentes da câmera e a de stêncil, gravou nas camisas a resistência do Alto da Paz.

Agradecemos muito o apoio, a disponibilidade e a gentileza do Ribamar, da Raquel, da Jô e dos moradores do Alto da Paz; do Centro de Assessoria Jurídica Universitária (CAJU); dos integrantes do Laboratório de Estudos da Habitação (LEHAB) e da pesquisa Arte| Espaço Comum| IntenCidades; dos oficineiros Clara Capelo, Eric Barbosa e Lucas Moreira Victor; de todos e todas que emprestaram suas câmeras e fizeram a oficina acontecer (valeu demais, gente!); dos atores Flávio Carvalho e Victor Freitas e dos fotógrafos Paulo Winz e Naiana Gomes, que realizaram um belo registro desse dia. Avante!

Fotos: Paulo Winz e Naiana Gomes.